O meu querido mês de Agosto
Há cerca de um ano escrevi neste espaço um dos mais reveladores textos sobre mim. “Uma vida sem medo” é um retrato mais do que pessoal – intimo – sobre uma peculiar forma de sofrimento que conduz a estados intensos de pânico. Desde essa altura pouco ou nada mudou na minha percepção sobre a fobia. Ela manifesta-se ciclicamente em mim, como um feroz animal adormecido que, reunidas certas condições, acorda de rompante, atacando as minhas defesas interiores. Em períodos críticos, como o das festas de Verão que agora atravessamos, é necessário estar mais alerta e vigilante com os perigos que espreitam. De Norte a Sul não há romaria ou festival que não demonstre com orgulho o seu dispositivo de pirotecnia, apesar do elevado risco de incêndio – e este ano a época de incêndios tem sido particularmente severa. É por isso no mínimo desconcertante – ou mesmo perversa – a forma como se continua a insistir na utilização de fogo-de-artifício nestas celebrações populares, nalguns casos bem próximo de zonas onde lavram violentos incêndios. Tudo em nome de tradições energúmenas, dignas de populações culturalmente atrasadas no tempo, ou pretensas receitas de turismo baseadas em falsas manifestações de genuinidade cultural, ou ainda para os autarcas angariarem votos nas próximas eleições, porque é preciso agradar ao povo e alimentar esta ditadura das maiorias de que a democracia é feita. Se a arte e a cultura servem para medir o grau de desenvolvimento de um país, e eu acredito que sim, então estamos falados. Conclusão: vivo num país de adoradores de fogo. Não vejo a hora deste mês de Agosto terminar e assim poder baixar o meu nível pessoal de alerta vermelho.
Como se tudo isto não bastasse, há um novo dado alarmante. Entrou em vigor o Decreto-Lei n.º 34/2010 de 15 de Abril de 2010, que transpõe para a lei portuguesa a Directiva n.º 2007/23/CE, sobre as novas regras que estabelecem a livre circulação de artigos de pirotecnia, tendo em vista a sua colocação no mercado. Esta novidade legislativa constitui, obviamente, uma oportunidade de negócio para os comerciantes e fabricantes de pirotecnia mas é motivo de preocupação e um perigoso retrocesso para nós, os fóbicos do fogo. Aparentemente, corremos o risco de regressar à situação existente há uns anos atrás, com as lojas a vender indiscriminadamente um impressionante arsenal de material explosivo durante a época de Carnaval. Só que com esta nova legislação passamos a ter Carnaval todo o ano! Em breve não faltará com certeza também a venda online destes produtos, como já acontece por exemplo em Espanha, país onde a lei permite que qualquer jovem com mais de 14 anos possa comprar livremente artigos pirotécnicos e utilizar na via pública a seu belo prazer! A situação não é muito melhor em França, onde existem lojas especializadas neste tipo de produtos, ou em Inglaterra, cujo período crítico de fogos de artifício é Novembro, transformando a vida social do fóbico num autêntico calvário. Ao que parece, nós por cá queremos ser iguais aos outros, naquilo que de pior fazem.
Sem querer fazer deste assunto um cavalo de batalha pessoal, pretendo no entanto sublinhar a importância de conhecer o inimigo. Tenho frequentado alguns fóruns de discussão na internet sobre o assunto e não deixo de ficar surpreendido ao verificar a quantidade de pessoas que não reage bem – para dizer o mínimo – a fogo-de-artifício e explosões em geral. Na maior parte dos casos uma possibilidade terapêutica está fora de questão, porque implica a coragem de enfrentar o medo, pelo que o estilo de vida está adaptado à condição redutora, na medida do possível e sempre envolvendo alguns sacrifícios sociais. Contudo há relatos dramáticos de pessoas que simplesmente tiram férias do emprego em certas alturas do ano ou então não saem de casa durante dias a fio, como medida drástica de protecção – prática corrente por exemplo nos E.U.A. no 4 de Julho (Dia da Independência). Se é admissível a ideia de que o problema está em nós, os fóbicos, e não na causa da fobia, os foguetes, então também é plausível a teoria de que todos temos o direito de não sermos incomodados com algo que nos causa um profundo sofrimento.


2 Comments:
..u sissy.. :1
Talvez criar um movimento colectivo para chamar mais a atenção e fazer valer direitos ou, porque não, realizar um documentário sobre esse inferno. Um abraço
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