A minha fotografia
Nome:
Localização: Évora, Portugal

Terça-feira, Agosto 11, 2009

uma vida sem medo


Se há coisa que respeito são as fobias dos outros. Talvez na esperança de que também respeitem a minha, este é um princípio do qual nunca abdico. Mesmo que por vezes seja difícil entender o motivo de tal fobia. Ou seja, o princípio activo que despoleta a ruína da razão e dos sentidos. Quando estou em contacto directo com o meu inimigo, o que felizmente é cada vez mais raro, os sintomas fóbicos são geralmente estes: uma quase paralisia da razão, tremores, suores frios, o que, como é fácil de perceber, leva rapidamente a uma completa incapacidade de agir socialmente com normalidade. Ao longo dos anos, fui adaptando a minha vida de forma a evitar situações em que corresse o risco de ficar exposto à causa da minha fobia. Claro que existem sempre aqueles momentos em que o radar de alerta pode não detectar o perigo, sobretudo se estou fora do meu ambiente normal, como por exemplo a viajar pelo país ou pelo estrangeiro. Fora isso, só mesmo uma falta de atenção grotesca pode ditar a calamidade – e isso já me aconteceu! É preciso ler os sinais, fazer um mapa da atmosfera emocional de cada lugar para perceber se ele esconde algum perigo, algo que possa colocar em causa o meu equilíbrio interior.

Este não é um assunto sobre o qual fale com frequência a quem quer que seja. Muito pelo contrário. Às vezes penso mesmo que receio mais que as pessoas que estão à minha volta se apercebam que tenho esta fobia, do que a fobia propriamente dita. Ela está escondida a sete chaves, como um bocado da minha essência, um precioso segredo que me recuso a partilhar de ânimo leve. No fundo, ela contribui para ser aquilo que sou, para ter esta visão romântica do mundo que me rodeia. A minha acentuada queda para o melodramático e para, por vezes, gostar de ser a vitima, decorre desta sensação de diferença em relação a todos os outros. A fobia diminui-me, isola-me, torna-me mais fraco. Mas, recentemente, descobri que, afinal, não estou sozinho. Há mais quem sofra do mesmo problema, nomeadamente nos Estados Unidos, no Brasil e, pasme-se, em Portugal! Assim tudo se torna mais fácil, é como frequentarmos uma sessão dos alcoólicos anónimos e discutirmos sem qualquer espécie de barreiras as nossas fraquezas. Só que o problema aqui não é o álcool. Nós, os fóbicos do fogo, juntamente com os cães, somos os únicos seres do planeta que temos medo de fogo de artifício, foguetes, bombas, petardos e basicamente qualquer coisa que rebente.
Vá lá, podem rir-se um bocadinho!! Eu gosto de ser original, até no medo.

Tenho esta fobia desde que me lembro de ser gente, devido a um acidente que aconteceu num espectáculo de pirotecnia, quando tinha cerca de 3 anos. E eu, claro está, assistindo a tudo bem lá na primeira fila. No meio da multidão em pânico. Para ser totalmente sincero, não guardo qualquer memória visual do que aconteceu. As únicas imagens que construí baseiam-se nos relatos que os meus pais fizeram. Mas o trauma ficou bem vincado, algures nos fundos escuros do inconsciente. Não é difícil adivinhar o sofrimento por que passei sempre que, a partir daí, me arrastavam para uma festa. Foram muitas as figurinhas tristes que fiz perante familiares e amigos. Não esperneava nem chorava baba e ranho, antes ficava petrificado de medo, numa espécie de estado de choque sofrido em silêncio. Incapaz até de tapar os ouvidos ou fechar os olhos. E, quando temos 10 anos, é duro ouvir outra criança dizer “eu gosto do teu medo”. As crianças também podem ser cruéis.

A fobia de foguetes é uma das mais raras e, do ponto de vista social, uma das menos toleráveis. Porque nunca procurei ajuda profissional para resolver esta fobia? De facto também me coloco esta pergunta a mim próprio. Mas penso que não o fiz por duas ordens de razão. Primeiro porque não senti uma especial necessidade: para além de só ocorrer em ocasiões pontuais, acabei por adaptar-me completamente, evitando situações que envolvessem foguetes. À custa, claro está, de algum isolamento social em certas épocas do ano. Ano Novo, Carnaval, festas populares e outras festividades, sempre estiveram riscadas no meu calendário social - o mundo a celebrar e eu a sofrer! O Verão é uma época especialmente propícia ao terror, parece mesmo que abre a caça aos fóbicos do fogo. Segundo porque reconheço que a única forma de ultrapassar este trauma é através da exposição directa e só a ideia de assistir a um espectáculo de fogo de artifício deixa-me doente, à beira do vómito. Penso que mesmo se algum dia vier a suportar este tipo de coisas, nunca deixarei de as odiar, quanto mais não seja pelo sofrimento que me infligiram ao longo de todos estes anos. E já tenho 36.

Pensem de mim o que quiserem. Mas atire a primeira pedra aquele que vive uma vida sem medo.

9 Comments:

Blogger Rit@ said...

As suas palavras poderiam ter sido escritas por mim.:)
Fantástico

11:05 AM  
Blogger arleqvino said...

..nice..
..updidaisy..

12:51 AM  
Anonymous Anónimo said...

Ena, q bom ler-t de novo por aqui, partilhando...

2:05 PM  
Blogger Sam said...

Olá
Eu também tenho medo do fogo mas não dessa forma eu simplesmento vou para o sitio mais abrigadito que encontro.
Mas sei do que falas porque eu também o sinto, é exactamente assim ficar doente, temer,suores frios, uma cólica, por ai...
Acontece quando saio, quando vou para a noite, tomar um café...
A minha arma é não desistir como costumo dizer dá e passa
beijinhos

10:51 PM  
Anonymous Anónimo said...

eu tambem tenho medo dos foguetes...é pena..porque eu gosto de conviver com os meus amigos, mas não posso ir a festas com os meus amigos em que as pessoas metem foguetes, era uma vergonha e seria humilhado...deviam ser proibidos!!!
Esses gajos que metem foguetes deviam de meter as canas num sitio que eu ca sei e depois sim, acende-los... a ver se eles punham outra vez. x)

2:14 PM  
Blogger lidia-bergano.com said...

a minha fobia.. (não se riam!).. são os botões!.. vá-se lá saber porquÊ...
Toda a minha roupa (salvo o caso das calças, que tem apenas um botão), tudo o resto é com fechos, velcros e colchetes.. NADA DE BOTÕES!

5:37 PM  
Blogger Marta said...

ola.
gostei imenso do teu post. e muitissimo importante respeitar as fobias dos outros para que estes possam ser parte integrante da sociedade. beijo

10:51 AM  
Blogger Marta said...

obrigado por partilhares o teu blog no meu. imagino que seja muito complicado. beijo^^

11:22 AM  
Blogger Andreia said...

eu também tenho medo dos foguetes e tudo ke faça um barulho semelhante... desde ke me lembro tenho esse medo e revolta-me porque adoro ir a festas sempre que há foguetes não posso ir e kuando vou a alguma festa fico sp com medo ke haja... gostava mesmo de o perder.

3:03 PM  

Enviar um comentário

<< Home